Ideias

O que estamos fazendo da nossa vida vida?

O que estamos fazendo da nossa vida vida?
28 ago 2017
Atualizado em: 01/10/2017

Pensar na vida talvez seja a primeira reação quando você se depara com a morte. E não falo apenas do medo de desaparecer, mas o de nunca ter vivido como se desejou.

Quem passou por uma situação traumática e viu a morte ali pertinho, não sai igual da experiência. Foi assim comigo, quando descobri o câncer. Tem sido assim com outras pessoas que encontrei em situação parecida.

Costumo comparar a situação a um salto no abismo sem paraquedas. Muitas crenças que você cuidadosamente construiu para justificar os rumos da sua existência, desabam sem dó.  Várias das coisas que você considerava fundamentais evaporam poucos minutos depois do diagnóstico.  Você precisa de algo sólido para se apoiar antes de chegar ao fundo. Mas onde?

Família e fé são suportes básicos. Mas há algo que nada nem ninguém pode fazer por você. A pergunta está ali escancarada, te cobrando uma solução. O que estou fazendo da minha vida? E a resposta neste caso é, literalmente, uma questão de vida ou morte.

A discussão sobre o sentido da vida não é mais conversa teórica de filósofos e religiosos. Ela é palpável, no aqui e no agora, e diz respeito a você, suas escolhas, suas noções de realização e felicidade. E se você não resolver, ainda que siga respirando, será como a morte.

É lógico que ninguém precisa ser sobrevivente para saber que algo está errado. No fundo, a gente sempre sabe. O stress excessivo se entrega na cabeça latejando e nas costas doídas. A preocupação constante vira insônia. A frustração e o cansaço crônico afetam o humor, a disposição, os relacionamentos.

O incômodo começa num dia qualquer. Você toma um analgésico e toca a vida. Mas ele volta, dia após dia, até o ponto de parecer normal, como se a dor cotidiana, que fere o corpo e os sentimentos, fosse um efeito colateral irremediável da vida. Se identificou?

Sim, o ser humano se acostuma com tudo, até com a infelicidade diária, com ajuda de um comprimido, um ansiolítico, um remedinho para depressão, uma dose diária de álcool, do vício em academia, redes sociais, compras e tantos outros.

A gente se acostuma porque parece mais fácil ignorar do que descobrir que se meteu num beco sem saída. A saída pode até existir (só não tem jeito para morte, diz o ditado), mas a gente não vê porque nossos pensamentos se debatem dentro de uma caixa lacrada, cheia de experiências frustradas e assuntos mal resolvidos. Cheia de medo.

Para fugir do medo, buscamos o futuro. Estudamos, trabalhamos, planejamos. Tudo vai bem até que, sorrateiramente, o caminho que devia ser prazeroso se transforma em sofrimento. Lutamos contra o tempo e esgotamos as forças, esquecendo das pessoas, dos sonhos, das paixões mais íntimas, dos ideais, das delícias do cotidiano.

O livro, o jardim, o céu estrelado, a brincadeira com o filho pequeno. Tudo fica para o fim de semana, para o feriado, as férias. E quando elas chegam, corremos desesperadamente de um lugar para outro para sugar o máximo possível da vida sonhada antes de voltar para a verdadeira.

O paradoxo é que, quanto mais aceleramos, menos enxergamos para onde vamos. Lembra da história do cabalo encilhado? Ele sempre passa, mas a gente nem sempre o enxerga para montar e seguir na direção certa.

Faça um teste simples. Do que você realmente se lembra do dia de hoje? Algo no caminho para o trabalho, uma conversa, uma leitura, uma sensação real? São esses momentos, quando você toma banho sentido a água quente no corpo, lê um livro ou observa algo com atenção, que as melhores ideias surgem.

Uma coisa a gente descobre quando é jogado para fora da caixa. Você não quer voltar. Não quer dizer que seja fácil. Às vezes, precisamos de ajuda. Ioga, meditação, leitura, dança e convivência tem sido úteis para mim. Outros buscam terapia, viagens, cursos, conselhos.

O que importa é abrir uma brecha. Para que a gente consiga espiar para fora dos muros que erguemos à nossa volta, e perceber, assim, a imensidão que nos aguarda do lado de fora.

 

 

 

por Cassiana Pizaia
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